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quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Sobre afetos, memórias e relações.

A afetividade é o pilar da memória. Seja a memória histórica de uma civilização, sociedade, povo, bairro ou comunidade; ela se faz no e do estar com, no apreço das pessoas e coisas de nossos entornos. Envolve um sentimento pessoal de gratidão, ou não, pelos componentes de nossas relações, constitutivas do que também chamamos "vida".
Não é, então, de se estranhar que ao estudarmos os pilares das civilizações encontremos agrupamentos de clãs e famílias (ou, se quiserem, comunidades) patri ou matrilineares, em seus princípios formadores. Para além dos laços consanguíneos - pois não é disto que se trata aqui -, as estruturas sociais que nos conservam e possibilitam o progresso são alimentadas por laços de afeto (sentimentos) - inclusive de conflito e emoções entendidas como negativas.
O afeto por algo nos faz querer conservar, manter vivo, ou mesmo transformar, se não destruir, o que não nos parece estar legal. Impressões emotivas, boas e más, deixam marcas mesmo que seus objetos de sentimento não se encontrem mais em nossos entornos. Razão disso, para bem ou mal, a memória. Aliada às ações, esta pode ser construída e evocada por palavras, imagens, cheiros, objetos etc., como que condensando impressões afetivas do passado para orientar o presente e o futuro. Daí as excelentes cunhadoras de símbolos que, ao longo da história, se tornaram as humanidades. Por meio deles, elas se recordam e, assim, amando e/ou odiando seus ancestrais, amigos ou inimigos, constroem o eterno a partir do próprio efêmero de suas existências. Ilusão? Celebração da vida? Ou anseio por continuidade?
  Algum sábio, provavelmente de origem grega, disse uma vez: a palavra nos traz a presença. E que presença seria essa, pode-se perguntar, se não a do afeto evocado pelo que mantemos em relação àquilo que desejamos materializar? Aqui, você pode estar se perguntando: mas aonde você quer chegar, com essa reflexão?
   Respondo. Naquele ponto existencial em que todos nós, de alguma forma, sentimos a necessidade de retribuir os afetos, importâncias e reconhecimentos recebidos na vida - fazer circular a breve felicidade dos afetos. Apenas um movimento de comunicar certo transbordamento ocorrido a partir de um caso vivido. 
Num dia desses, escutava duas pessoas falarem de amor. Me chamou a atenção o fato delas em certos momentos ironizarem e, em outros, se posicionarem ceticamente, reagindo aos "paulocoelhismos" (será que essa expressão ainda faz sentido?) do amor. Com a noção destacada em aspas, o amor era avaliado apenas como discurso, como se ele não dependesse das práticas ou, mais do que isso, do exercício de retorno às memórias que, por sua vez, geram novas orientações  frente aos afetos trazidos pelas relações. 
Retorno ao amor, porque ele em muito diz respeito às bases problemáticas, constitutivas, da possibilidade do viver em conjunto (relacionamentos, amizades, famílias, comunidades) - ao modo de fazer sociedade. E, isto, se conecta ao afeto e à memória. Ser afetado e deixar-se ou não afetar, ou melhor ainda, para amar e ser amado - o que privilegio aqui - é preciso lembrar. E lembrar também consiste em trabalho: reforçar a relação pela ação intermitente de recordar. 
    O tempo, a linguagem e todas as categorias pinçadas antes, só se tornaram possíveis, materializáveis, por meio da memória. O momento em que os homens passaram a conceituar a realidade só foi possível pela emergência, em conjunto, da memória das coisas que, por sua vez, favoreceu as atribuições de valores e medidas a elas. E, todo esse processo, é preciso dizer, não começou no que chamamos hoje de Ocidente. Em verdade, neste assunto talvez não importe tanto as "origens", senão aventar que, antes da memória, não existia tempo, não existia consciência, nem mesmo História. A realidade (natureza e cultura) como objeto de reflexão ou, se quiser, reflexividade, também não era possível de ser apreendida e transformada pelo homem em objeto de trabalho e aperfeiçoamento: reinava o acaso ou nem mesmo isso talvez. 
Vou parar por aqui, a proposição é pensar e, levando em (re)consideração a velha máxima "paulocoelhística" de que "o amor constrói" e que pode suplementar os afetos, a empatia pelas coisas e pessoas ou o tão importante reconhecimento e respeito às diferenças constitutivas. Não se trata apenas de abstração, mas de prática que auxiliada pela memória e suplementada pelo amor, pode orientar rumos outros, individuais e coletivos. Passo a bola...

                                                                                                                                                                Cleverson Fleming em 03/04/2014.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Essa minha confusão por você.

Oi, querido,

eu só queria, e preciso, expressar o que sinto...
Parece mesmo que eu tenho mania de confundir amizade e Amor sexual. Algumas pessoas vão entender muito bem do que falo. Mas, com toda a confusão, gosto de pensar que este impulso é sexual naquele sentido freudiano da sexualidade: uma energia que flui em todas as relações – algumas vezes realizada, outras sublimada e, na mais infeliz das vezes, reprimida.  
Se por um lado, deveria ser tão normal esse acontecimento – o de combinar amor e amizade -, por outro lado, nossa cultura nos interpela a sublimação do desejo carnal por aqueles que o amor nos trouxera primeiro em amizade. Em tal imposição descansa o medo. O medo de estragar o que é tão belo enquanto não se consuma.   
Não sei ainda a razão de canalizar meu afeto a você. Talvez seja esse seu jeito lindo de ser, de sorrir, sua altura e esse seu corpo esguio, a temperatura morna que sinto quando te abraço, sem falar também da inteligência emocional da qual você é possuidor – e com a qual me identifico. Minha paixão por você é um tanto narcísica. Sua sagacidade, seu lado negro, eu consigo vislumbrar. Mas sei também que este seu lado é uma casca: uma carapaça espinhosa que protege toda a beleza de um espírito sensível e doce.
Mesmo que seja por um momento, eu quero. Mesmo que doa agora saber que se possível talvez só aconteça uma vez. E se não acontecer, o que também é provável, peço mil perdões, pois sublimar não vou. Reprimir, jamais. Outro caminho seguirei, essa dor eu já conheço.
E você? O que conta dessa habilidade que você tem de sentir e saber? Só espero que não entenda isso como um jogo. A vida é tão única para darmos sequência a toda essa competitividade impelida pelo sistema a que estamos submetidos...
Vamos viver isso, mesmo que seja só uma vez? Mostra-me o que sabe? E não falo só de sexo, pois isso, eu sei que você já teve e terá muito melhor do que posso te dar e, quando digo isso, também me coloco no seu lugar.
Talvez seja só uma viagem da minha cabeça e do meu corpo confusos. Mas está aqui, o quê eu posso fazer? O que você fará com isso? O que faremos? No fundo sei que disso ficará o aprendizado, pois toda essa situação só me faz pensar que eu gostaria de ter te conhecido em outro momento, na verdade, num outro lugar...
Eu estarei aqui. E continuarei tirando casquinha de você. Se for incômodo, proteste! Eu adoro gente que reage.
Cordialmente,

                          Cleverson Fleming – 29/09/2015.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sobre a Afetividade

   A afetividade é o pilar da memória. Seja a memória histórica de nossa civilização, de nossa sociedade, do nosso povo, do nosso bairro, da nossa comunidade; ela começa no nosso apreço e apego emotivo  pelas coisas e pessoas ao nosso redor. É ser grato pelo que temos, vivemos e nos relacionamos nas nossas vidas. 
   Neste sentido, não é de se estranhar que ao estudarmos os pilares da civilização encontremos os clãs ou as famílias - sejam elas patri ou matrilineares - agindo como o sustentáculo-semente de nossas origens e instituições sociais. Mas, para além, dos laços consanguíneos, a estrutura que nos conserva e sustém - seja como pessoas, famílias, grupos de interesses, sociedades e como civilização -, é alimentada por sentimentos de solidariedade e afeto. 
   O afeto por algo nos faz querer conservar e manter vivo. Mesmo que tal objeto já não esteja mais ao alcance de nossos sentidos físicos. O instrumento para isso - o desejo de eternizar? A memória. E, esta, é evocada por símbolos. Durante toda história o homem cunhou símbolos para se recordar e conservar. Algum sábio, provavelmente de origem grega, disse uma vez: a palavra nos traz a presença. E que presença seria essa se não a imagem evocada pelas afetividades que mantemos em relação àquilo que desejamos presentificar? Aqui você, caríssim@ pode estar se perguntando: mas aonde você quer chegar, meu caro Fleming, com essa reflexão?
   Vos então responderei. É pelo simples desejo que tenho de retribuir a todos os afetos e importâncias que recebi na vida. Percebo que hoje, em alguns momentos em que falo de Amor, as pessoas ironizam e banalizam - ou se posicionam ceticamente numa posição de reação aos "paulocoelhismos" do amor. Como se o Amor também não precisasse do discurso e de sua prática. Ter afeto é lembrar: reforçar pelo trabalho a memória. E tudo isso é Amor!
    O tempo, como categoria e artifício psicológico, só é possível através da memória. É a partir do momento que os homens passam a conceituar a realidade, criando a memória das coisas, que eles passam a atribuir valores e medidas. Antes da memória não existia tempo, logo, não existia História. Por conseguinte, a realidade, como objeto da reflexão, também não era possível de ser apreendida e transformada pelo homem em objeto de trabalho e aperfeiçoamento: reinava o acaso - onde cronos devorava seus filhos divinos.     
   Não me estenderei, pois aqui a proposição é pensar! Levando em consideração esta reflexão, quem há de objetar a velha máxima "paulocoelhística" de que "o amor constrói" e que o afeto, a empatia pelas coisas e pessoas está na base de tudo? E com que argumentos? Fica para a reflexão.


                                                                                                                                                                Cleverson Fleming em 03/04/2014.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Dos verdadeiros progressistas...

"O verdadeiro impulso para o progresso é dado, naturalmente, pelos que sofrem e são oprimidos. São eles que mordidos pela miséria, de arranco em arranco, atiram a sociedade para diante (...) O caso dos raros progressistas e inovadores saídos das classes conservadoras não destrói a regra comum, porque, em verdade, é na classe dos oprimidos que eles se vêm amparar, quando, ou a ambição, ou mesmo, o altruísmo, os leva a lutar em prol da justiça" (Manoel Bomfim. América Latina, p. 359).
Citando o Mestre Manoel Bomfim, sobre o conservadorismo brasileiro

"A sociedade conserva-se, independentemente de qualquer esforço; conserva-se, pelo simples fato de que existe, por uma função inconsciente, reflexa, necessária a tudo que é (...) Há conservadores cujos esforços se dirigem no sentido, não de defender a sociedade contra supostas destruições impossíveis, mas de conservar para uma classe, para certos grupos, umas tantas vantagens, ligadas a abusos e iniquidades. Onde quer que surja a oposição conservadora, há um privilégio que se quer manter" (Manoel Bomfim, América Latina. P. 168,170 e 171).

domingo, 29 de janeiro de 2012

Fragmentos de uma guerra

"E chegou o momento em que se confrontaram: Lúcifer e o Grande Arquitetor. O grande cisma: Razão x Emoção, aquele velho conflito entre o que se pensa e o que se sente. Velhos Idealistas contra os não tão modernos Materialistas. Mas eis que ambos, de tantas investidas e lutas, acabaram por não resistir e caíram. Ao cair tocaram-se e ao absorverem as energias e propriedades um dos outros, cansaram-se dos velhos ranços e abraçaram-se. 
A energia que surgiu das duas grandes potências aqueceu e explodiu. Não eram mais como antes. O calor os uniu. Amaram-se. Mas das velhas formas, nada agora lembravam. Eram um só e muitos ao mesmo tempo. E o Amor expandiu o conhecimento, que agora pertencia a todos e sem nenhum utilitarismo. Era compartilhado e criado em comum.
Nunca mais se ouviu falar, naquela parte do universo, em uma guerra entre Impérios. Estes já não poderiam mais tomar forma, pois com os poderes distribuídos igualitariamente por todos e sem privilégios, a Paz conseguiu reinar: Essa era a Deusa encarregada de tomar corpo na nova estrutura que se levantava no agora.
Seu reinado se estendia a todos os territórios. A única coerção que existia era a lei maior do Amor e da Verdade (que para cada homem era a sua em união com a dos demais) que interiorizada em cada ser trazia a estabilidade daquele universo."  - Enfim, tenho que dormir! Já são 07h da manhã.
                                                     Cleverson Fleming (29/01/2012)

sábado, 29 de outubro de 2011

Tocando na Ferida...

Minha cabeça está a mil, não consigo parar de pensar. E imagino que o motivo disso deve ser a vontade de viver todas as possibilidades das quais sei que ainda podem existir neste mundo. Às vezes dou ataque de deprê, até chego dizer que quero “ir embora daqui” e deixar todo esse mundo louco pra traz. Essa semana mesmo, por exemplo, surtei. Na verdade, sei que estes momentos representam só uma forma que tenho de dizer pra mim mesmo (e para os outros!) o quanto quero viver ainda.


Viver sim, porque tem muito que se fazer ainda aqui! Olha quanta contradição, olha essa bagunça! Puta que pariu! E olha que ela ainda tentou abortar, mas o chá que tomou pra isso não funcionou pelo visto, agora o filho cresce nas ruas esperando que a sociedade termine o aborto. E essa sociedade somos nós! Enfim...


É preciso ter uma força de leão pra levantar todos os dias, ainda mais nestes dias. E só se conformar, “dando um jeitinho” e tocar a vida não rola – não dá! É cliché demais: além de sabermos que causa stress, dá infelicidade ou no máximo tédio! O conformismo só deixará essa bomba latente. Mesmo que seja preciso implodir ou explodir tudo de uma vez, é preciso fazer algo! O grito está na garganta entalado. E enquanto se segura para não gritar e ferir “ouvidos castos”, o grito não sai: mas ecoa e endurece a alma! Atitude blasé? Até quando? 
Até enlouquecer? Não precisa, já estamos loucos! Olhe à volta!


Mudar o mundo? Pra quê?! Se tenho onde dormir, o que comer, o que vestir, e o circo a minha disposição num clique de controle remoto ou do pc no facebook?


Ser superficial? Talvez!  Afasta a consciência da culpa. Pra quê sonhar, refletir ou questionar? Se afinal já temos o pão e o circo nosso de cada dia?


E ser profundo? É mais difícil! Pois dói: e como. É estar mexendo numa ferida que não cicatriza. E ela nos atordoa, pois, afinal, ela já faz parte da estrutura, não é mesmo? E então o que fazer? Fingir que ela não existe? Não caríssim@! Não dá. Sinto lhe informar: mas ela vai continuar ali. E quando estiver sozinh@ - você e seus pensamentos – ela volta a lhe dizer oi!

Viver é assim! É também saber assumir a bagagem que nos legaram sem nos perguntarem se a queríamos. Ou não, você tem direito de escolha! Tem liberdade! Será mesmo?


Penso que enquanto deixarmos a ferida escondida, ou a bagagem (como quiser!) guardada no fundo do guarda-roupa, estamos nos alienando e deixando de viver o que é nosso. É por isso que quero viver. Quero tentar dar conta dessa bagagem: cuidar dessa ferida que arde no meu sangue todos os dias. Pois ela me traz dor, confusão e muita instabilidade.


Contudo, ela também me traz a consciência de que estou vivo. Pois, ao afinal das contas, estou sentindo. E se é possível ter percepção ou agir no mundo, é porque também existem sentimentos no pacote.


Boa vida, boas dores, bons momentos e tristes também! O importante é fazer valer a pena não é mesmo?!


                     Cleverson Fleming (29/10/2011 – 04:45)

                

quinta-feira, 20 de outubro de 2011


Fiel é o caralho!

In Cultura on 02/09/2011 at 15:26
Helga Gahyva
Em “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”, o teórico russo Mikhail Bakhtin alega a impossibilidade da verdadeira compreensão do sistema de imagens rabelaisiano se analisado fora da linguagem do realismo grotesco, correspondente ao sistema de imagens da cultura cômica popular da Idade Média e do Renascimento.
Segundo Bakhtin, ao tom feudal, sério e religioso, próprio à cultura oficial medieval, contrapunham-se manifestações da cultura popular nas quais apenas por meio do riso exprimiam-se certas verdades sobre o mundo. Relegado à esfera extraoficial, o cômico tinha lugar no carnaval e nas demais festas populares. Se as comemorações oficiais buscavam reforçar a ordem, consagrando sua estabilidade, nas festas populares abria-se espaço para o reino utópico da liberdade, da igualdade e da abundância.
Nos espaços públicos – praças, feiras etc. -, as celebrações populares caracterizavam-se por uma lógica do excesso, na qual as imagens do corpo e suas necessidades naturais adquiriam tom superlativo. Trata-se, em síntese, de um princípio de rebaixamento, pilar artístico do realismo grotesco, por meio do qual os elementos considerados sagrados e elevados são transferidos e reinterpretados no plano material e corporal.
Além de hiperbólico, o corpo grotesco é dinâmico – não o corpo acabado, perfeito, individualizado, próprio ao cânone moderno, mas um corpo em constante metamorfose, tal como as velhas grávidas de terracota esculpidas por Kertch. Valorização da fecundidade – a prenhez dilata o corpo que produz novo corpo – e da velhice – o corpo em degeneração que não se esgota, pois se regenera ao produzir nova vida. Ênfase naquilo que o põe em contato direto com o mundo: orifícios, protuberâncias, excrescências. Nas faces, destacam-se bocas e narizes; pouca atenção merecem os olhos – eles individualizam um corpo que é também, e sobretudo, coletivo.
Assim, comer, beber, cagar, foder são representações correntes no sistema de imagens da cultura cômica popular. Traduzem ações nas quais o corpo revela sua essência: ao ultrapassar seus limites ou ter seus limites invadidos, ele revela sua necessária incompletude. E são ditas naqueles termos, ou em equivalentes igualmente grosseiros. No vocabulário cômico do realismo grotesco, os eufemismos caros à oficialidade cedem lugar a palavrões, injúrias e obscenidades de toda ordem.
Rabelais, nota Bakhtin, abusa dos tons vulgares, resgatando, em sua obra, a linguagem da praça pública – do povo, enfim. Mas, se foi na literatura do Renascimento que o realismo grotesco conheceu seu apogeu, foi para brevemente viver seu ocaso. A partir do século XVII, a atitude em relação ao riso sofre transformação radical, demarcando rígida fronteira com aquela época. A racionalidade cartesiana e a estética classicista despontam como expressões ideológicas das monarquias absolutas progressivamente estabilizadas. O riso conhece aí seu processo de degradação. Não mais lhe cabe expressar uma forma universal de concepção do mundo; seu papel, agora, oscila entre o divertimento ligeiro e a mera ridicularização de quem se tornou merecidamente vítima de um escárnio. Na hierarquia dos gêneros, o cômico ocupa modesta posição. Se no realismo grotesco degradação e regeneração são duas faces de uma mesma moeda, o novo cânone descarta a ambiguidade e adere à decência verbal. A obscenidade torna-se patrimônio da vida privada; o inacabamento, imperfeição; e a representação hiperbólica cede lugar àquela que se pretende cópia fiel da realidade.
Apesar de rebaixada, a estética do realismo grotesco permaneceu habitando os subterrâneos da cultura moderna. À sua época, Bakhtin reconhecia seus ecos em certos números circenses e em espetáculos de feira. Hoje, no Brasil, ela irrompe de modo avassalador no funk carioca. Como caso paradigmático dentro deste vasto universo, vejamos como essa estética se manifesta na atitude corporal e nas letras das músicas cantadas por Valeska Popozuda, líder do grupo de funk “Gaiola das Popozudas”, e propalada celebridade de segunda linha.
No que se refere ao primeiro aspecto, a funkeira cultiva a opulência física de uma autêntica mulher fruta. Enquanto nas “vogues” pululam salientes clavículas e ilíacos, vendidos como ideal máximo de beleza, ela leva suas formas hiperbólicas à capa da Playboy, revista ícone do pornô-chic. Valeska é apenas o exemplo, talvez mais sintomático, de um fenômeno relativamente recente: o ingresso no mundo do consumo de fatia considerável das classes populares. À sua ascensão social corresponde a valorização de um ideal de beleza que, distante dos corredores do Fórum de Ipanema, corporifica o belo na abundância curvilínea. Mas Valeska vai além: metamorfoseia seu corpo, ampliando artificialmente as protuberâncias. Seu corpo não é refém de suas formas originais. Ela não queima sutiãs; prefere renovar permanentemente seu estoque a cada circunferência maior que o silicone lhe propicia.
Já no título de seu primeiro sucesso, A porra da buceta é minha, Valeska chuta no joelho. Em uma sociedade na qual “fulano é bom para caralho”, proliferam metáforas para nomear o órgão sexual feminino. A falsa loura as despreza, optando pela palavra que arranha ouvidos castos. Em Tô com o cu pegando fogo, pérola mais recente, gravada em parceria com o não menos rabelaisiano Mr. Catra, ela escolhe outro nome – Raspei a xereca pra você chupar – mas mantém a carga obscena.
E se a porra da buceta é dela, Valeska pode dá-la a quem quiser. A máxima domy body, my choice é levada ao extremo. Em uma sociedade na qual, a despeito de esforços recentes, persiste intensa desigualdade de oportunidades, a melhor saída para uma boa dona de casa cansada de um marido violento e mulherengo pode estar na prostituição, ensina ela em Agora virei puta. Por que seria má ideia cobrar pelo que se costuma oferecer de graça? Por que, em um sistema econômico no qual tudo se transforma em mercadoria, a venda do corpo causa tanta repulsa? As mulheres que habitam as canções de Valeska não precisam se fazer tais perguntas; elas preferem unir prazer e trabalho.
São mulheres que, acima de tudo, adoram sexo e o praticam sem culpa – meu nome é “Valeska” / e o apelido é “Quero dá”. Preferem o prazer de uma relação informal às modorras do matrimônio. Ser a “outra”, então, pode ser uma tremenda vantagem, como ela canta na música que dá título a esse texto: fiel é o caralho / você é empregadinha / lava, passa e cozinha / mas a pica dele e minha! Um amante casado é, na pior das hipóteses, um otário pra bancar. Afinal, mulher burra fica pobre / mas eu vou te dizer / se for inteligente pode até enriquecer, assegura a funkeira em Minha buceta é o poder.
Valeska é espontânea de uma multidão de mulheres que não se identifica com as barangas ajeitadas de Sex and the city. O prazer não se realiza no binômio sapatos novos / relação estável, mas na animalidade do sexo. O homem desejado é, antes de tudo, aquele bom de cama – condição que só se revela na prática. À rotatividade inevitável segue-se a recomendação: a gaiola está na pista / se me olhar beijo também / para não trocar os nomes / eu vou te chamar de Nem. Mas não se trata de mera loteria, pois as personagens dos funks de Valeska conhecem suas preferências. Elas não esperam passivamente que os homens lhes deem orgasmos; mais sábio indicar-lhes o caminho das pedras, como em Surra de piru na cara e Comece a me chupar.
Nas suas letras, louvam-se inclusive aqueles orifícios menos ortodoxos. Trata-se, afinal, de uma artista que propagandeia em seu próprio nome artístico suas virtudes calipígias. O sexo anal, socialmente cercado de tabus, é transformado em diferencial próprio àquelas que exercem e assumem seus desejos. Se elas brincam com a xereca / eu te dou uma chá de cu, gaba-se Valeska, recusando-se a ter um orifício cuja função seja somente a de verter merda. Mas ela vai além, penetrando em reentrâncias ainda mais interditadas: o ânus masculino é também fonte de gozo. O homem bom de cama tampouco despreza oportunidades de prazer, como revela a estrofe: me chama de cachorra / de mamada e de lanchinho / mas na hora do vamos ver / tu vira o cú e pede dedinho.
Se o realismo grotesco, em suas origens, valoriza as diversas funções fisiológicas do corpo, Valeska concentra-se naquelas de caráter sexual. Excrescências e farturas alimentares, por exemplo, estão ausentes de suas músicas. O excesso etílico, por sua vez, comparece em algumas canções, mas sempre subsidiário ao sexo. A embriaguez, afinal, auxilia a mulherada a perder a linha.
Mas, para além da sua atitude corporal e de suas composições, a performance de Valeska carrega o traço de extraoficialidade que caracterizava as festas populares de outrora. Suas músicas só aparecem nos grandes meios audiovisuais em versões adocicadas. Mesmo em um evento como o “Eu amo baile funk”, sediado no Circo Voador, os organizadores preferem que ela vá pro baile de sainha, e não sem calcinha, como apregoa a letra original. De modo semelhante, o valeu, muito obrigado [sic], mas agora virei puta torna-se valeu, muito obrigado [sic], mas virei absoluta. Outros exemplos poderiam ser arrolados, porém o que interessa aqui é perceber que a verve grotesca de Valeska manifesta-se plenamente apenas em um locus especial: o baile funk“de raiz”, colonizado por popozudas que exibem orgulhosas suas saliências corporais e não ruborescem ao som de obscenidades que, ao fim e ao cabo, descrevem aquilo que se faz presente no seio das “melhores famílias”.
Não faltam aqueles que encerram tais manifestações sob a rubrica da mera vulgaridade. Tratar-se-iam de sintomas da falta de educação de umlumpemproletariado refém da cultura de massas. Esta é uma chave interpretativa possível, não há dúvida, mas que me parece pecar pela incapacidade de compreender certos aspectos da sensibilidade popular. Mais ainda, essa perspectiva pressupõe uma verdade acessível apenas àqueles que compartilham um ethos “vitoriano” que precisa ser difundido às massas. Cumpre-nos perguntar, entretanto, em qual medida setores das classes populares em ascensão social desejam ser educados segundo as orientações da decência verbal e sexual, ou se, ao contrário, preferem manter-se fiéis ao paradigma do excesso. A se considerar a música dedicada ao ex-presidente Lula, Valeska não parece ter dúvidas: o funk não é problema, para alguns jovens é a solução / quem sabe algum dia viro ministra da Educação.

Fonte:
Revista Pitacos. Revista de Cultura e Humanidades. Disponível em: 

domingo, 25 de setembro de 2011

Trocando uma ideia sobre a ideia...

Olá caríssim@! 
Ultimamente tenho tido muitas oportunidades de exercitar meus neurônios, e não estou falando da faculdade. É que estou trabalhando num lugar que estou amando e que tem me proporcionado muitos elementos para a reflexão de como SER e ESTAR no mundo: a Agência de Redes para a a Juventude. A Agência é um projeto social que estimula o protagonismo e intervenção de Jovens moradores de favelas em seus territórios,  um projeto fantástico - sem demagogia!  Mas neste texto não é exatamente dele que venho tratar. Falo brevemente da Agência porque foi ela que a princípio me instigou a pesquisar o tema para este texto. Quero discutir um pouco o conceito de "ideia", conceito este que temos muito discutido neste espaço o qual me sinto privilegiado de estar. Vamos lá?!
Ideia. O que é? Pesquisando numa enciclopédia e também na internet, achei diversos significados (uns quatorze mais ou menos). Dentre eles o que me chamou atenção foi uma clara definição localizada no Wikipédia que diz o seguinte: "O termo ideia (...) é usado em duas acepções: como sinônimo de conceito ou, num sentido mais lato, como expressão que traz implícita uma presença de intencionalidade." 
Tal definição me atraiu porque seguindo este pensamento: "(...) expressão que traz implícita uma presença de intencionalidade.", podemos constatar que uma ideia (seja ela qual for) não surge do nada. Pois se imbuída de "uma presença de intencionalidade", logo é composta de elementos pressupostos, anteriores. Portanto, e ainda nesta linha de raciocínio, para se ter uma boa ideia (ou uma ruim também!) é necessária toda uma reunião de elementos e coisas diferentes numa trama para que a ideia se forme.
Assim, podemos pensar a ideia como um quebra-cabeças montado: nos possibilita a visão de um todo, mesmo sendo a junção de distintas peças. Só que ao contrário de um quebra-cabeças, logicamente determinado em sua forma de montagem, a composição da ideia é o resultado da harmonia (ou não), que damos aos elementos que captamos e unimos em nosso pensamento.
Outra coisa relevante dessa definição é que ideia, para ser ideia, é expressão. Ou seja, deve ser expressa em ações, caso contrário, não passará de mero pensamento.
É senso comum costumamos perceber ou classificar de "inteligentes" os sujeitos que possuem boas ideias. Podemos ir de acordo com esta representação se entendermos, dentre os seus amplos sentidos, inteligencia como a capacidade de fazer correlações entre elementos. Daí poderemos traçar a relação entre ideia e inteligência: se todos nós temos a capacidade de relacionar elementos diversos e expressá-los num composto único (a ideia), logo todos nós somos seres inteligentes. O fator que fará diferença, superficialmente, entre "ser e não ser" inteligente está, então, nesta capacidade de expressão dos pensamentos e, também, na permissão de deixar as correlações ideais virem a luz através da forma.
A ação confere forma e fixa esteticamente nossas ideias e pensamentos. O movimento é, consequentemente, essencial ao exercício da expressão das ideias, mas isso é assunto para um outro dia... Por enquanto é o que tem pra hoje! Beijos!
                                                 (Cleverson Fleming )  

Fontes de apoio:
Dicionário Enciclopédico Ilustrado Larousse. - São Paulo: Larousse do Brasil, 2007.

Ideia. Enciclopédia livre on-line. Wikipédia. Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Ideia. Pesquisa em: 25/09/2011.
                                                                                                                         
    
 










sábado, 27 de agosto de 2011

Onde?

De onde vem o desejo pela sombra?
Será que vem do fundo da dor e do desconforto de sentir estar num mundo errado?
E qual seria o mundo ideal? Será talvez aquele o qual poderemos criar?
Sinto falta da música que traz a calmaria de um lago.
A terra: ela geme. A terra treme.
As suas lágrimas molham seu corpo. 
Mas há um caminho:
ACORDE LOGO!
Mergulhe na sombra e sinta a dor, pois ela é real.
Há um mundo inteiro pra criar.
Só depende de nós.
Não demore, AGORA!

domingo, 7 de agosto de 2011

Legitimando a Homofobia...


'Dia do Orgulho Hetero' aprovado pela Câmara de São Paulo vai reforçar homofobia


Orgulho de quê?

Em defesa de seu projeto, Apolinário repete que “ser gay é um direito, não um privilégio”. E que, já que existe o “Dia do Orgulho Homossexual”, ele teria também o direito de celebrar a sua heterossexualidade. Discurso esse repetido também por seus apoiadores. “É preciso que os gays aprendam a viver em sociedade, respeitando a ordem e os bons costumes. Vamos combater a homofobia e a heterofobia, pois ser gay é um direito e não um privilégio” , escreveu o vereador em um artigo publicado no paulistano Diário de São Paulo.

Seria assim mesmo? “Um grupo oprimido afirma o seu orgulho como forma de reivindicar o seu espaço, a luta por igualdade, contra a inferiorização social”, afirma Douglas Borges, da Secretaria LGBT do PSTU. Já um “Dia do Orgulho Heterossexual” só serviria para “reafirmar o padrão heteronormativo, reafirmar uma posição ideológica já dominante”. Ainda mais, num período de aumento da homofobia, “acirrar a polarização social”. Reforçaria, assim, o ódio contra os homossexuais.

Seria tão absurdo como criar o “Dia do Orgulho Branco”. “Quem ganha com isso são justamente aqueles que pensam como o deputado Jair Bolsonaro” , afirma Douglas, que vê ainda um perigo fascista no discurso moralista de em “defesa da ordem e dos bons costumes”. “Isso faz recordar o movimento reacionário que se vinculava à moral dominante e que serviu de base de apoio ao Golpe Militar de 1964 (marcha da familia com Deus e pela liberdade)"

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Desigualdades...

Qual o porquê de tantas desigualdades no mundo? E porquê a miséria e a pobreza são elementos tão "naturais" da nossa sociedade? Será que um dia deixaremos de humilharmos e explorarmos uns aos outros?
Sinto sede. sede de conhecimento, sabedoria e respostas à estas questões: principalmente de como solucioná-las. Eu queria ter sim o poder de mudar o mundo! Mas sei que o mundo não é só meu e entendo que não dá pra mudá-lo sozinho. Já até tentaram antes mas deu no que deu - com um tal de nacional socialismo (nome chique para os nazi-fascismos).
É, Rousseau, concordo com você quando você diz aquela parada: de que a desgraça do mundo começou quando alguém chegou e disse "isso é meu" e alguém tão ignorante quanto este acreditou.
Que merda ver violência, pobreza e desgraças próprias e alheias. Dai-me forças e esperança pra continuar.




"(...)O Homem é infeliz e mau enquanto é encarcerado pela lei, pelo costume, pelas regras adquiridas (...)"        
                                                                                                                                               (Gramisci) 

Desatando os nós....

"Reprimir os instintos e desejos é se alienar das nossas capacidades transformadoras: é tornar-se infeliz e submisso à forças ocultas, mas bem presentes em forma de autoridades e de normas fracassadas. Não me tornarei submisso diante da autoridade vazia, que se utiliza de palavras de ordem e de manipulação de informações para consolidar o seu poder totalitário."
SEGURANÇA PÚBLICA = TERRORISMO DE ESTADO

domingo, 17 de julho de 2011

Significar...

Você já parou pra refletir sobre como anda a sua vida hoje? Sei lá... Te pergunto porque vejo que há tanta coisa pela frente e às vezes tenho medo. Será que tem algum sentido nisso tudo?
Acredito que se existe algum sentido, este  está na ausência do mesmo. A genialidade do Grande Arquiteto foi conceber toda essa beleza e nos dar a possibilidade de poder significá-la.
Portanto, se não vejo significado no que está à minha volta, é um sinal de que tenho muito trabalho pela frente: trabalho de dar significado para tudo isso!
                                             Cleverson Fleming .'.

domingo, 10 de julho de 2011

A CURA - Por http://ninguemporai.blogspot.com/


Hoje tive um dia bem produtivo no trabalho. Consegui dar um importante passo em algo que estava parado, mas na volta pra casa foi inevitável pensar em uma relação... eu e o HIV. Ouvindo o cd Inclassificáveis do Ney Matogrosso percebi que uma música traduz bem a minha relação com o HIV. O tempo?



Clique aqui e aproveite melhor essa música.

Acho que morre algo em mim hoje. Tem morrido a cada dia e sinto que isso é bom. Talvez seja o processo natural desse luto, talvez seja o nascimento de um novo ser, sim um Alguém. É muita resignificação! Vejo a vida com novos óculos, ou mesmo novos olhos. Me despeço hoje de alguém em mim. Acordo de um sonho chamado esperança. Espero que “futuro” seja uma palavra aliada e que me reserve coisas boas. Acho que até hoje tive, sim tive, alguma espécie de esperança disso tudo ser mentira ou erro de laboratório. Como diria Ana Maria Braga: “Acoorrrda menina!!”. Mas quem me acordou foi o Ney. Me despeço dela, sem olhar pra trás. Beijo esperança. Reagente nem sempre é ruim. Hora de reagir.

  Blog de Ningém Por Aí:http://ninguemporai.blogspot.com/

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Mulher Aranha - por Priscila Paixão

"A aranha estava construindo sua teia, ela fia pacientemente, cruzando linhas, cuidadosamente, mas precisa. Formando uma teia - seu mundo - e quando terminado, ela se instala no centro, onde pode sentir/saber o que acontece ao seu redor - criadora e dona de seu mundo.
Havia um rosto, ora caveira, ora máscara de morte, que me dizia, que me falava e me explicava ensinando. Sua teia era seus longos cabelos, negros, contrastantes com sua face alva. Agitado constantemente pelo frio vento que soprava. "Faça o que for preciso" me dizia, "e na hora, tudo será entendido". "Deixe-se levar, todos estamos na teia Dela e a grande sabedoria consiste em sentir"!
Há uma grande neblina cobrindo a terra todas as noites, uma linha tão tênue quanto uma teia, a grande teia Dela está combrindo a terra, na noite, lar da deusa que trabalha no escuro. Suas teias estão se espalhando. E que vítimas a grande aranha irá pegar em sua armadilha espectral?"

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sobre as Diferenças (Por Luiz Eduardo Soares)


Conviver em paz e constrututivamente com as diferenças entre os indivíduos e os grupos é o maior sinal de saúde psíquica, sucesso político, desenvolvimento social e amadurecimento cultural e moral. Mas não  é fácil. Mesmo os que acreditam no valor das diferenças, mesmo os que crêem na necessidade de respeitá-las nem sempre conseguem experimentar, na prática da vida cotidiana, o que postulam, em teoria.
Por que é tão importante? E por que, tão difícil?
I. Sobre a importância da diferença
Importante porque sem diferença não há o Outro, só há o sujeito, e este, isolado, apartado de qualquer relação humana, sequer chega a ser um sujeito no sentido pleno da palavra, não chega a ser uma pessoa. Sozinho, o ser humano não seria capaz de pensar, elaborar as emoções e dar sentido ao mundo e a si mesmo. Isso tudo por um motivo: sem o Outro, a linguagem seria impossível. Afinal, ela é herdada, envolve comunicação e supõe o compartilhamento de significados, o que implica um consenso mínimo sobre aquilo que se entende e percebe como sendo “a realidade.
Veja que interessante: para que uma pessoa exista em sua plenitude, exercendo suas faculdades intelectuais e emocionais, é preciso uma linguagem, um Outro e uma realidade compartilhada, isto é, uma realidade que faça sentido para ambos. Conclusão: ou regressamos à nossa natureza estritamente animal ou teremos de aceitar viver em um triângulo, do qual seremos apenas um vértice. Os outros dois vértices serão ocupados, respectivamente, por outro sujeito (diferente de nós, portanto) e pela linguagem. Ocorre que essa linguagem a que me refiro não se esgota em uma língua. Ela traz consigo valores, crenças, tradições e um universo de significacões sob a forma de relatos míticos, saberes, enunciados expressivos padronizados, codificações das emoções e narrativas que dão sentido à realidade comum. Ou seja, a linguagem traz consigo uma cultura, uma história e, consequentemente, uma sociedade. Aí está, enfim, nossa equação completa, sob a forma triangular: o sujeito -- o Outro -- a sociedade.
A diferença entre o sujeito e o Outro é mediada (isto é, intermediada e temperada ou calibrada) pelo terceiro vértice: a sociedade ou a linguagem. Quer dizer: ambos os sujeitos, ainda que diferentes por definição, pertencem à mesma sociedade e são interlocutores, capazes de trocar mensagens e negociar significações. Tudo se complica caso pertençam a sociedades distintas, dotadas de línguas, valores e culturas diversas. Mesmo assim, entretanto, enquanto participantes da comunidade humana, dotados da faculdade linguística (aptos a produzir e captar sentido), continuam sendo capazes de negociar significados e se comunicar, inventando meios originais de adaptar suas linguagens às possibilidades de entendimento comum, via recursos expressivos criativos, usando o corpo, os gestos, a mímica, os objetos disponíveis e os sons.
Até  aí, tudo parece fluir muito bem. O ser humano não é nem pode ser uma ilha. Precisa do Outro e, para interagir com o Outro, precisa dos outros, isto é, de uma sociedade e uma cultura. Antes de representar um problema, a diferença é a solução. O bloco do eu sozinho é uma fantasia irrealizável e essencialmente autodestrutiva, uma vez que esse eu solitário não poderia ser um eu: isolado, não teria uma linguagem na qual se expressasse e se constituísse --se concebesse e se experimentasse-- como “eu”. Viva a alteridade, ou seja, a existência do Outro. Viva a diferença que faz de você quem você é, na exata medida em que faz do Outro aquilo que ele ou ela é.
A relação é que nos dá à luz como sujeitos. Ela é  mãe, matriz, ninho, nicho, ambiente, origem e natureza. E nela (na relação) há, repito, três componentes: eu, Outro, a sociedade (ou a cultura, ou a linguagem). A diferença nos constitui. Somos a diferença com o Outro, ante os outros (a comunidade a que pertencemos).
Seria melhor esclarecer o papel do terceiro termo, os outros, a sociedade ou a linguagem (que só existe porque há uma sociedade, a qual também deve sua existência à linguagem). Por que, sem a linguagem, eu e o Outro não somos nem eu nem o Outro, nem iguais nem diferentes? O que são a igualdade e a diferença?
II. Sobre o sentido da diferença
Uma porta e uma pera são diferentes, concorda? Claro, você come a pera e passa pela porta. No entanto, alguém poderia fazer o papel do advogado do diabo e dizer que ambas são palavras e, portanto, não são diferentes. O que as difere são seus significados.
A noite e a manhã são diferentes, mas são ambas períodos do ciclo de vinte e quatro horas que chamamos dia e, nesse sentido, são iguais.
Amigo e inimigo são antônimos, isto é, têm sentidos opostos, mas ambos são modalidades de relacionamento e, nessa medida, são o mesmo.
Assim como o samba e o tango, a rumba e o jazz, o frevo e a valsa, o mambo e a salsa. Enquanto ritmos, são diferentes. Todavia, por serem ritmos, são iguais.
Frio e calor são distintos e opostos, mas são ambos sensações térmicas provocadas por variações da temperatura.
O som alto e baixo, grave ou agudo, são diferentes mas são sempre som.
As cores, todas elas são diferentes entre si, mas também são iguais, porque, afinal, são sempre cores.
O que quero dizer é que não há diferença sem semelhança, desigualdade sem igualdade, distinção sem analogia, uma vez que a diferença é uma comparação, um contraste, uma relação, e uma relação envolve três elementos: os objetos a serem comparados e um critério ou uma medida (o sistema métrico, uma escala cromática ou sonora, um termômetro, um código que ordena valores). E a linguagem de uma sociedade (sua cultura) é o depósito dos critérios e das medidas.
Em síntese, não há sujeito sem Outro, nem há relação entre ambos (a diferença é uma relação) sem uma referência comum que os identifique e reconheça sua diferença, enquanto seres humanos individuais ou enquanto membros de grupos sociais, com nomes e sobrenomes, idades e outras características.
Essas características só ganham o estatuto da dessemelhança porque, ao mesmo tempo, são assinaladas a partir de um critério comparativo (digamos, frio ou quente), cujo funcionamento depende, como vimos, do estabelecimento de condições semelhantes, isto é, condições que ambos os objetos a serem comparados possuem (a referência comum a partir da qual se assinalará a diferença será uma condição comum a ambos os objetos comparados: nesse caso, a temperatura).
Figurativamente, temos três vértices de um triângulo: o objeto A, o objeto B e um termômetro, manejado por um observador, que conhece a técnica da leitura de termômetros e que pertence à sociedade em cuja cultura o saber e a tecnologia pertinentes (sobre temperaturas e medições) foram desenvolvidos.
Em uma frase: a diferença é a sombra da semelhança, só existe a seu lado e sob a luz de um observador.
Por outro lado, o mesmo vale para a semelhança ou a identidade. Elas não reinam absolutas. Só existem no contraste com as diferenças. Precisam delas a seu lado para afirmarem-se como aquilo que são. E também necessitam do triângulo que descrevi.
Por isso, o sujeito necessita do Outro para ser ele mesmo ou ela mesma. E sendo ele mesmo ou ela mesma, quer dizer, sendo idêntico a si, assumindo uma identidade, o sujeito traz para dentro de si a diferença (ele não é o Outro, do qual se distingue, entretanto, por dele distinguir-se, com ele compartilha condições comuns, sem as quais a diferença e a identidade não existiriam) e o triângulo, o qual envolve, no terceiro vértice, a sociedade (ou a cultura, ou a linguagem, ou a medida, ou o critério, ou o valor).
A relação com o Outro é internalizada no processo de construção da identidade de um sujeito.
Dizendo de outro modo: a diferença é internalizada e deixa, portanto, de ser uma exterioridade da qual o sujeito possa afastar-se. Não importa se esse Outro, esse diferente é abominável, tolerável, assustador, estranho, perturbador ou assimilável, admirável e amável. Se há identidade e diferença, há, como demonstrei, entre o sujeito e o Outro uma natureza comum, uma condição comum, uma semelhança de fundo sobre a qual se ergue a diferença. Reconhecer essa comunhão com o Outro, essa semelhança de natureza e condição, por maior que seja a diferença, já é suficiente para nos inquietar. Por isso é tão lindo e tão forte –e tão verdadeiro-- admitir que tudo o que é humano nos diz respeito. Por mais repulsivo que o Outro nos pareça.
Essa é a razão primeira e mais dura para a dificuldade de conviver com o Outro, com os outros e suas diferenças: elas nos assustam porque também estão dentro de nós e correspondem a lados obscuros e amedrontadores nossos, que preferimos ignorar e reprimir.
III. Por que é tão difícil conviver com diferenças?
Consideremos um exemplo: o ódio que sentimos por alguém que tenha cometido um crime violento, mesmo que a vítima não seja conhecida, às vezes alcança um patamar elevadíssimo, a ponto de induzir violentos atos de vingança. Há muitas razões que explicam esse sentimento e a reação de outras pessoas ao nosso lado pode servir de combustível.
Todavia, quando se supera o momento e a explosão emocional esfria, sem que se altere a disposicão íntima de infligir ao agressor a violência que ele cometeu, mesmo que por intermédio de ações policiais ou pela via indireta da defesa de mudanças no código penal, talvez haja algo enigmático, que mereça esclarecimento.
Minha hipótese é a seguinte: em casos desse tipo, é provável que a fúria permaneça viva porque algo insuportável permanece vivo: a identificação com o criminoso; a descoberta dentro de si de um lado, uma dimensão, uma possibilidade sua de ser tão violenta quanto o criminoso e seu ato bárbaro. Daí o desespero por punir com tamanha brutalidade, apagando o criminoso do mapa da existência, destruindo até a última de suas cinzas. Seria um modo de exorcizar o mal entrevisto dentro de si mesmo. O mal que se deseja incinerar tão ardentemente precisa ser destruído, no mundo objetivo, para ser simbolicamente exorcizado do mundo subjetivo.
Não quero dizer que todos os que investem emoções intensas na punição severa de um criminoso sejam, no fundo, criminosos em potencial. O que sustento é que várias dessas pessoas sentem-se culpadas por crimes inconscientemente cometidos, desejados, fantasiados, e temem –sem o saberem-- serem capazes de violência extrema.
 Uma ilustração: o psicanalista Bruno Bettelheim relata, em um de seus livros, um caso curiosíssimo e engraçado, e rico em ensinamentos. A criança chorava e não conseguia dormir. Por isso, o pai tentou acalmá-la contando a história do Chapeuzinho Vermelho. Ele falava, a criança escutava com atenção, mas em seguida voltava a chorar, angustiada. O pai, atendendo ao pedido do filho, contava de novo a mesma história, enfatizando o happy-end para tranquilizar a criança. No entanto, o ciclo se repetia. Até que, esgotado, o pai completa a narrativa: “…e tudo acabou bem. A vozozinha sobreviveu. Chapeuzinho sobreviveu. O lobo mau morreu. Não há razão para medo. Está tudo bem. O lobo acabou. Morreu”. Ao que o filho, aos prantos, replica: “Mas o lobo sou eu; eu sou o lobo”.
Nas fantasias de destruição do irmãozinho que teria nascido para ocupar seu lugar no coração da mãe (e do pai), a criança terminara por identificar-se com o personagem negativo, na medida em que se culpava pelas próprias emoções e lhes atribuía uma espécie de poder de realização objetiva, como se sonhar com o desaparecimento do pequeno rival equivalesse a destruí-lo, materialmente.
Essa criança precisava ouvir uma história diferente; uma história que tratasse o lobo com benevolência, mostrando que ele não é  mau, apenas sentiu o que todos nós sentimos e expressou isso no teatrinho da história –teatrinho que nunca ultrapassa as fronteiras da brincadeira e do fingimento. Enquanto a história terminar com a punição severa de um lobo irremediavelmente mau, a criança com ele identificada não encontrará consolo, nem espaço interno para processar a terrível culpa que carrega. Se não elaborar sua culpa e o medo de sua própria fantasia destrutiva, tenderá a crescer com essa ferida aberta. Quando algum lobo mau se manifestar no mundo real, ouvirá o uivo rouco e angustiante de seu lobo interno. Seu impulso será destruir o lobo externo para livrar-se do sofrimento provocado pela presença aterradora de um lobo mau na alma. Mesmo adulta, essa eterna-criança acreditará, sem ter disso consciência, que, se não matar o lobo externo, quando a lua cheia iluminar o bairro o lobisomem adormecido dentro de seu espírito rasgará seu corpo, destruindo, definitivamente, sua identidade e as pessoas que ela ama. Ela quer a morte do lobo mau externo para matar o mal que supõe carregar dentro de si.
Não  é essa a lógica do sacrifício? As comunidades tradicionais costumavam sacrificar animais para livrarem-se do mal e merecerem a benção divina. Por isso, a operação ritual começava com a transferência simbólica dos pecados humanos para o corpo do bezerro que seria sacrificado.
O mesmo se passa quando a sociedade procura bodes expiatórios para aplacar suas culpas. Bruxas, homossexuais, prostitutas, drogados, vagabundos: quais são as categorias que encarnam o mal da sociedade e são obrigados a expiar as culpas coletivas com seu próprio sacrifício?
Eis aí um bom tema para discussão e uma maneira fascinante de pensar sobre por que é tão difícil aceitar a diversidade e conviver, em paz e respeitosamente, com as diferenças.
                                                                     (Comentário extraído do site: Agenciarj.org)